Amor de Carnaval


Conheci-a há quatro anos durante uma festa de Carnaval exatamente igual a que eu estava agora. Já tinha anoitecido e grande parte dos foliões já haviam se dissipado deixando para trás a sujeira costumeira pelas ruas. Diferente de grande parte da cidade, que não podia ouvir falar em Carnaval que já ficavam excitados, eu gostava de ir para essas festas só para beber um pouco e curtir com os amigos. Nada muito carnavalesco.

Éramos bastante diferentes. Soube disso de imediato. A vi pela primeira vez logo que cheguei, dançando animada com as amigas, não dando a mínima para as pessoas que a olhavam como se ela fosse louca. Era apenas mais uma desconhecida no meio de uma multidão, mas eu a olhei. Seu corpo magro se mexia com excitação, fazendo seus cabelos curtos grudarem em seu pescoço e testa com o suor. Seu rosto estava coberto por uma máscara preta que contrastava com sua pele branca. Acabei perdendo-a de vista alguns segundos depois e logo a esqueci.

O milagre de Carnaval aconteceu poucas horas depois que a encontrei pela primeira vez. Eu e meus amigos estávamos para ir embora, meio embriagados pela bebida e o calor da festa. E de repente ela apareceu na minha frente. Estava com um conhecido de um amigo meu, os que se conheciam se cumprimentaram enquanto eu a admirava quieto. Ela percebeu que eu olhava e devolveu o olhar com um sorriso. Nossos conhecidos apresentaram seu grupo um a um e eu soube o seu nome. Alice.

Acabamos indo todos juntos para a casa do meu amigo. No caminho, comecei a puxar papo como quem não queria nada, mas ela não era de falar muito. Nem eu era, na verdade, mas naquele momento eu queria ser. Alice apenas sorria para cada frase que eu dizia. A turma secou mais algumas cervejas deitados no sofá e no chão, procurando a melhor maneira de se divertir. Alice não fez diferente. Ela não parava em um lugar, sempre bebendo em um canto, falando com uma amiga em outro ou apenas relaxando mas mantendo uma distância de mim.

Já sem esperança, fumei meu cigarro e bebi uma cerveja, desistindo de conversar.

– Tem outro cigarro? – Alice perguntou tirando a máscara do rosto. Sem ela, pude ver seus olhos negros intensos borrados de maquiagem. Passei o cigarro e o acendi para ela. Então começamos a conversar. Não foi algo muito especial, digo, nem lembro mais sobre o que falávamos, afinal, a bebida havia distorcido parte da minha memória.

Pouco tempo depois estávamos no quarto. Sua respiração era ofegante enquanto eu a beijava e tirava seu vestido. Ela possuía tatuagens pelo corpo. Uma espiral na costela. Asas negras na costa como se fosse um anjo.  Era uma Alice diferente de todas as Alices que existiam e viriam a existir. E depois daquela noite, ela desapareceu. E eu nunca mais a vi.

Até essa noite.

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