Ride

Leia ouvindo: Annabel – Goldfrapp

As pessoas que a conheciam nunca acreditariam no que ela havia se tornado. No monstro tão maravilhosamente belo. Na fusão de uma beleza inocente com a profunda solidão que a atormentava. Ela não era uma garota má. Não era uma menina rebelde. Ela era uma aventureira. Uma pequena amostra de como uma pessoa pode se rebelar contra o mundo. Mas ela não era contra os princípios da sociedade. Na verdade ela os adorava. Em momentos como esse, quando sua mente está em todos os lugares ao mesmo tempo, ela pensa em sua vida antiga. Em sua casa. Em sua família. Como ela estaria agora? Provavelmente arrependida de nunca ter arriscado, nunca ter saído da zona de conforto.

Ela gosta do que faz. Não faz por amor mas por uma necessidade tanto física quanto espiritual. Não era amor. Nem desejo. Ela era uma pessoa tão solitária que qualquer forma de contato bastaria no momento. Ela estava sozinha. Tão arrebentada pelas peripécias passadas que não havia mais um pudor, um senso de honra ou sabe-se lá o que andam dizendo. Para ela, pobre coitada, viver daquele jeito era ter amor próprio. Ela não se sentia presa a nada. Nem a ninguém. Ela pertencia ao mundo. Pertencia apenas a ela mesma. Mas sua mente não parava de se perguntar: O que eu me tornei?

Naquela noite ela estava fumando em um posto de gasolina. Esperando. Estava bastante frio para deixar as pernas e a barriga de fora mas não tinha outro jeito. A fumaça do cigarro penetrava os seus pulmões e a esquentava como uma velha amiga. Ela fechava as pálpebras carregadas de sombra barata tão lentamente que parecia estar adormecida. Esperar era a parte mais difícil. Ficar sozinha com os pensamentos. Com as lembranças. Ela não podia se dar esse luxo. Passaram três carros antes do quarto parar. Ela forjou um sorriso zombeteiro e agiu rapidamente. Negociar o preço era fácil, já que se a chamaram geralmente estão desesperados por atenção. O homem do carro era bonito até, olhos claros, cabelos curtos e barba por fazer. Parecia que vinha de longe pela expressão cansada em seus olhos. Ele aceitou o preço e ela entrou no carro. Não havia mais solidão então. Até ela ficar sozinha novamente. Mas ela não se importava nem um pouco. Apesar de tudo, Alice era livre.

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