Resenha: A rainha vermelha

Victoria Aveyard, Edição 1 – Editora Seguinte – 424 páginas. ISBN: 978-85-6576-569-5

Sinopse: O mundo de Mare Barrow é dividido pelo sangue: vermelho ou prateado. Mare e sua família são vermelhos: plebeus, humildes, destinados a servir uma elite prateada cujos poderes sobrenaturais os tornam quase deuses.
Mare rouba o que pode para ajudar sua família a sobreviver e não tem esperanças de escapar do vilarejo miserável onde mora. Entretanto, numa reviravolta do destino, ela consegue um emprego no palácio real, onde, em frente ao rei e a toda a nobreza, descobre que tem um poder misterioso… Mas como isso seria possível, se seu sangue é vermelho?
Em meio às intrigas dos nobres prateados, as ações da garota vão desencadear uma dança violenta e fatal, que colocará príncipe contra príncipe – e Mare contra seu próprio coração.

A Rainha Vermelha é mais um conto da gata borralheira: a menina pobre sem a menor perspectiva de futuro – apenas a guerra – tem sua reviravolta inesperada e acaba no castelo rodeada de príncipes e mordomia. Mare Barrow poderia ser uma Cinderela da vida mas as coisas não melhoram tão de repente assim para ela. Nesta distopia, a sociedade é dividida pelo sangue: vermelho ou prateado. Mare é uma vermelha, ou seja, ela é pobre e deve servir aos prateados que se consideram superiores por causa da cor de seu sangue e por possuírem poderes especiais.
Mare está quase completando 18 anos e sabe o que vem a seguir: será enviada para lutar uma guerra onde poucos sangue vermelhos voltam para casa com vida. Sua única saída é arranjar um emprego ou fugir. O problema é que fugir não é tão simples quanto ela gostaria e Mare acaba se envolvendo em confusões que colocam sua família em perigo. Quando não havia mais esperança de fugir, um garoto desconhecido consegue um emprego para ela no palácio.
Satisfeita por ser dispensada da guerra, Mare nunca imaginaria o que aconteceria em seguida. A vida dos prateados era extremamente diferente da vida dos vermelhos e isso ficava mais perceptível para Mare ao ver tudo aquilo com os próprios olhos. Os prateados eram super poderosos e viviam como deuses com os vermelhos servindo-lhes. Mas durante uma seleção de princesas para o príncipe (o que ironicamente me fez lembrar de A Seleção) um acidente acontece e Mare descobre ter poderes especiais tais como um prateado. Por decisão do Rei, que apenas a manteve viva por todos os prateados terem visto a vermelha com poderes, Mare deve fingir ser uma prateada para proteger sua família e sua vida.
Mare passa a viver com todas as mordomias de uma prateada, se enfurecendo cada vez mais com a desigualdade entre eles e seu povo. Essa raiva acaba cegando-a e querendo se rebelar contra os prateados. Ficando cada vez mais poderosa por treinar seus poderes e tentando aprender a ser uma prateada, Mare percebe que está em um lugar muito perigoso onde não pode confiar em ninguém.
A história tinha tudo pra ser uma boa distopia monárquica, se é que existe essa categoria. Mas não conseguiu. Infelizmente, faltou originalidade a história. Não gosto de fazer comparações mas é impossível nesse caso. A semelhança entre essa história e A Seleção é notável no início da trama. Mari e Meri poderiam ser vizinhas. Isso tirou um pouco da expectativa que eu tinha pela história.
O romance também não foi bem desenvolvido. Não esperava um romance água com açúcar, mas houve várias tentativas de romance pela autora, todas mal sucedidas. Primeiro, o seu vizinho orfão que parecia prestes a sair da friendzone mas permaneceu lá. Segundo, o princípe regente prometido a outra pessoa mas que surge uma troca de olhares e… nada. Rolou a faísca e nada. Nadinha. Terceiro, o príncipe caçula com uma química forçada e nenhum jeito de levar adiante. Foi péssimo. Talvez no próximo volume o romance seja melhor explorado. Outra coisa a ser mais explorada em Espada de Vidro são os personagens superficiais. Mare aceitava tudo o que estava acontecendo sem desconfiar de nada quando era um tanto óbvio que algo estava errado.
Apesar de todas as coisas que deixaram a desejar, eu gostei da história. Eu estou torcendo para que no próximo livro as coisas que citei melhorem mas como um todo é uma leitura agradável. A escrita da autora é bem suave, sem muitas palavras difíceis e te faz ter vontade de continuar a ler. Outra coisa que me deixou com vontade de ler a continuação foi o desfecho. A reviravolta que aconteceu já era esperada mas mesmo assim foi boa e deixou a curiosidade de saber o que iria acontecer com todos. Por último, preciso elogiar a capa do livro. A coroa escorrendo sangue ficou demais. A Editora Seguinte está de parabéns. Agora é aguardar o lançamento de Espada de Vidro que coincidentemente será lançado no dia do meu aniversário: 12 de fevereiro.

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Resenha: A revolução dos bichos

George Orwell, tradução Heitor Aquino Ferreira; posfácio Christopher Hitchens. – São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2007. ISBN: 978-85-359-0955-5

Sinopse: Cansados da exploração a que são submetidos pelos humanos, os animais da Granja do Solar rebelam-se contra seus donos e tomam posse da fazenda, com o objetivo de instituir um sistema cooperativo e igualitário, sob o slogan ”Quatro pernas bom, duas pernas ruim”.
Mas não demora muito para que alguns bichos – em particular os mais inteligentes, os porcos – voltem a usufruir de privilégios, reinstituindo aos poucos um regime de opressão, agora inspirado no lema ”Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”. A história da insurreição libertária dos animais é reescrita de modo a justificar a nova tirania, e os dissidentes desaparecem ou são silenciados à força.
Instrumentalizada na época da Guerra Fria como arma anticomunista, A revolução dos bichos transcende os marcos históricos da ditadura stalinista que a inspirou e resplandece hoje, passados mais de sessenta anos de seu surgimento, como uma das mais extraordinárias fábulas sobre o poder que a literatura já produziu.

Cansados de serem explorados pelos humanos e estimulados pelos porcos, os animais da Granja do Solar fazem uma revolução e expulsam os humanos da granja. A granja passa então a se chamar Granja dos Bichos onde todos trabalhariam por igual, sem nunca serem explorados ou passarem fome, vivendo em paz sob as regras que chamaram de Animalismo. O animalismo pode ser resumido pelo slogan ”Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, o que ilustra o sentimento de desprezo dos animais para os humanos.

Aos poucos, alguns bichos mais inteligentes – os porcos – vão mudando e alterando a paz para os animais, trazendo novamente o regime de opressão que antes existia. Os animais agora trabalhavam em dobro, passavam fome e não podiam reclamar ou eram silenciados. A obra, escrita em 1945 (fim da Segunda Guerra Mundial) é uma metáfora que satiriza a ditadura stalinista.

O objetivo do autor era escrever uma história simples para que todos entendessem o significado. E ele conseguiu. As atitudes de alguns animais da Granja dos Bichos são fáceis de relacionar com figuras da União Soviética. As execuções em massa, a morte de Sansão que trabalhara até morrer, Napoleão representando Stálin e o perseguido Bola-de-Neve como Trotski.

George Orwell viveu entre 1903 e 1950, quando morreu de tuberculose. Em vida, Orwell foi escritor, jornalista, socialista e também serviu na Polícia Imperial Indiana. George Orwell, ao escrever A revolução dos bichos procurava denunciar o mito soviético. Sobre isso ele disse:
”Pensei em denunciar o mito soviético numa história que fosse fácil de compreender por qualquer pessoa e fácil de traduzir para outras línguas. No entanto, os detalhes concretos da história só me ocorreriam depois, na época em que morava numa cidadezinha, no dia em que vi um menino de uns dez anos guiando por um caminho estreito um imenso cavalo de tiro que cobria de chicotadas cada vez que o animal tentava se desvair. Percebi então que, se aqueles animais adquirissem consciência de sua força, não teríamos o menor poder sobre eles, e que os animais são explorados pelos homens de modo muito semelhante à maneira como o proletariado é explorado pelos ricos.”

Antes de ser publicado, A revolução dos bichos foi rejeitado por vários editores pois a sátira presente na obra era clara e em 1945, os soviéticos eram aliados dos Estados Unidos e Inglaterra na luta contra o nazismo. Anos depois com a Guerra Fria e a bipolarização do mundo em Capitalismo versus socialismo, os capitalistas usaram a obra para disseminar o anticomunismo. Vale lembrar que Orwell se declarava socialista e sua obra foi usada pelos capitalistas de maneira errônea.

Hoje a obra é considerada um clássico e continua bastante atual apesar de ter sido escrita a mais de 50 anos. A mensagem que o autor quis passar é clara: o poder pode correr uma pessoa, um ideal, uma filosofia.