É real

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Ouça: Ella Henderson – Yours

Ela estava triste. Sentia que deveria estar triste. Nossa, uma grande merda aconteceu. Se tivesse acontecido duas semanas atrás ela olharia para o nada com as unhas cravadas na pele e os olhos enchendo de lágrimas. O estômago doeria. O coração aceleraria, não sabia ao certo se por conta da decepção ou por seu cérebro querer negar tudo. Ela colocaria o travesseiro na boca pra abafar o grito de dor que se formou na garganta. Tentaria segurar os soluços. Choraria tanto e se culparia por algo que não fez.

Mas dessa vez ela não se surpreendeu, ao invés disso, suspirou cansada. Estava cansada de ficar triste pelo erro dos outros. Tinha se tornado corriqueiro. Um ritual semanal. Decepção. Tristeza. Sonolência. Dúvida. Esperança. Alegria. Decepção de novo. Nessa ordem. O ciclo se repetiu tantas e tantas vezes que chegou um momento que não queria mais fazer parte daquilo. Ela percebeu que nunca daria certo, que ao insistir, não estava sendo determinada ou lutando bravamente por um amor. Estava se destruindo.

Percebeu que não fazia mais o que queria. Que seus sonhos eram banalizados. Que suas ideias eram consideradas idiotas e errôneas. Ela não podia dizer o que pensava. Era uma decepção. Não podia ser quem ela queria ser. Não podia ser quem ela já foi um dia. As borboletas no estômago viraram suco gástrico. Incomoda. Dá vontade de chorar. Ela não consegue entender por que passou tanto tempo pra perceber. Nunca foi amor.

Ela pediu tanto pra Deus tirar o sentimento dela que quando aconteceu, tudo mudou. Foi estranho, inicialmente. Pensou que tivesse virado um monstro. Nada mais a abalaria. Tudo seria diferente. Depois veio a dúvida. Pensou que a qualquer momento os sentimentos reapareceriam. Viriam todos de uma vez e de um jeito que não conseguiria suportar. Tinha medo do que faria consigo. E agora, veio o nada. Aquela dormência sentida depois de tanto chorar. Sem emoção. Sem sofrimento. Só um nada.

Ela estava em pedaços. Sentia-se humilhada, desprezada, inútil e diversos outros adjetivos depreciativos. Nunca se achara boa o bastante e agora parecia ter certeza. Ela deu todas as partes boas de si e foi tudo jogado no lixo. Não significava nada. Não fazia diferença. Nem sequer seria lembrada daqui a algumas semanas. Queria desaparecer para sempre. Se esconder de todos os sentimentos, de todas as memórias, de todos os erros que perdoara. Queria existir em outro lugar. Com outras pessoas. Fingir que tudo não tinha passado de um pesadelo.

Mas foi real. E ela vai aprender a lidar com isso. Dia após dia, ela vai recriar seu novo ritual. Acordar e afastar o primeiro nome que vem a mente. Ficar sozinha e afastar as memórias. Desviar os olhos de coisas que ela gostaria de esquecer. Mudar de assunto diversas vezes para não ter que falar sobre. Segurar o estômago, as lágrimas e permanecer de pé quando a maior vontade é deitar e remoer tudo até cair no sono. Afastar os pensamentos antes de dormir. Tudo isso é feito diariamente. Até chegar o dia em que tudo desaparecerá. As memórias não doerão. O colar guardado não fará diferença. As fotos que agora estão escondidas só trarão sorrisos nostálgicos. Tudo ficará bem.

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Sorria

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Querida Alice,

Eu sei que está sendo difícil, que a cada dia que passa e uma nova decepção surja, ver o lado bom das coisas fica cada vez mais distante. Mas não desista, vai chegar o dia em que você acordará e não sentirá aquela pontada no coração quando lembrar de tudo o que aconteceu. Você acordará sem um nome na cabeça, sem a preocupação do que pode estar acontecendo e dormirá sem lágrimas nos olhos e as unhas cravadas na pele.

Agora, com a mente tão tempestuosa e as memórias tão próximas, não dá pra acreditar que isso vai acontecer, mas vai. Você vai se acostumar com a solidão, chegará o dia que você vai abraçá-la e sentir-se confortável. Ela é sua melhor amiga e pior inimiga. Ela segurará sua mão e vai te deixar escolher o caminho. A solidão pode ser sua maior ajuda ou seu maior tormento. Depende de como você vai lidar com tudo. Seja forte, a solidão somada com todos os sentimentos que você está sentindo podem te jogar mais para o fundo e ficará tão profundo que pode não haver volta. Não deixe que isso aconteça, meu amor; Aceite-a na sua vida de coração aberto e coisas boas começarão a surgir.

Não deixe o passado interferir no seu presente. Quem dirá no seu futuro. Deixe tudo para trás. Não se preocupe, você não perderá nada. Uma vida cheia de recomeços é o que você precisa. Chegou a hora do seu recomeço, sorria para ele. Veja a beleza da vida, aproveite os pequenos prazeres. O barulho da chuva, o silêncio da noite, o cheiro do almoço quase pronto, o abraço da família. Pare de sofrer pelo passado que não deu certo e olhe para a imensidão que está a sua frente. Um futuro inteiro. Há tanto para conhecer, tanta coisa para sentir.

Não tenha medo do futuro incerto, corra para ele, veja o que ele pode lhe oferecer. Deixe todo o peso das suas costas para trás. Não carregue coisas desnecessárias na mochila, você precisará desse espaço para coisas novas. Deixe-se viver. Deixe-se sorrir. O universo sorrirá de volta.

Querida Alice, recomponha-se. Leve o tempo que você precisar para juntas todos os pedaços caídos, chore o suficiente para encher um rio inteiro, mas aceite que tudo tem um final e um por quê. Sua vida vai começar de verdade agora. Aproveite cada segundo. Seja feliz.

Resenha: A casa de Hades

img_1302A casa de Hades é o quarto livro da série Os heróis do Olimpo, escrita pelo Rick Riordan e publicada no Brasil pela editora Intrínseca. No volume anterior, A marca de Atena, os semideuses conseguem encontrar a estátua de Atena Paternos perdida mas Percy e Annabeth acabam caindo no Tártaro ao tentar recuperá-la. Ao começar a ler A casa de Hades ainda há o choque inicial da queda dos dois semideuses no lugar mais obscuro do mundo. Geralmente os livros do Rick seguem o mesmo padrão em todas as histórias mas por essa eu não estava esperando. Considero esse livro um grande diferencial na escrita do Rick, pois apesar de ainda conter os elementos clássicos presentes em todas as suas narrativas anteriores, nesse volume tivemos um salto grotesco na personalidade, nos conflitos internos e no desenvolvimento dos personagens.

            Um grande exemplo disso são os personagens Nico e Jason. Eu sempre gostei do Nico na série Os Olimpianos mas nunca imaginei que ele tivesse tantas dúvidas e segredos durante todo esse tempo. Saber o que se passava vagamente pela cabeça dele e como ele estava lidando com os fatos foi bem interessante. No caso do Jason, ele não sabe mais onde é seu verdadeiro lar, se ele quer ficar no Acampamento Júpiter, onde sempre morou ou ir pro Acampamento Meio-sangue e abandonar os romanos. Essas dúvidas são esclarecidas ao longo da história e garantem a aceitação do personagem, além do desenrolar das situações propostas na trama.

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                   Sem querer desmerecer a Piper, o Leo e a Hazel mas quem brilhou nesse livro foi o Frank. O desenvolvimento desse personagem também foi fenomenal. Ele passou de um ”personagem secundário” (porque para mim só existe Percy e Annabeth), para um verdadeiro guerreiro e líder. E não, isso não aconteceu do nada. A tragetória dele até a aceitação de que ele poderia liderar foi natural.

            Outro fator a ser ressaltado nesse livro são as cenas do Tártaro. A descrição do Tártaro foi tão detalhada que ficou incrível o quão perigoso e assustador era o desafio de fechar as portas da Morte. Pela descrição foi fácil sentir o pesadelo que estava sendo para Percy e Annabeth passarem por aquilo. Eles tiveram que enfrentar monstros impossíveis de serem derrotados pela força, além de ter que continuar em frente mesmo não conseguindo manter mais a esperança. Sentir o que se passava na mente deles, o quanto eles estavam sofrendo e o medo de perder um ao outro foram os melhores capítulos dessa história.

            Enquanto os dois tentavam chegar ao coração do Tártaro, os tripulantes do Argo II não estavam muito melhores. Eles estavam tentando chegar a Épiro para encontrar Percy e Annabeth e fechar os portões da morte, impedindo assim que os monstros saíssem do Tártaro mas como de praxe, tudo sempre dava errado. Além disso, para pressionar mais ainda nossos heróis, uma guerra estava para começar entre os Acampamentos Júpiter e Meio-sangue, o que levaria milhares de semideuses à morte.

            Ufa, quanta coisa, não é mesmo? Mesmo com o clima pesado do livro, a narrativa flui facilmente, os pontos de vista são alternados entre os semideuses, o que garante um suspense maior entre os plots Argo II e Tártaro e sem dúvidas, como sempre, o livro chega ao fim com aquele sentimento de quero mais. O quinto e último livro da série já foi lançado no Brasil e está ali na estante me esperando para ser devorado.

Títulos anteriores:

Série Percy Jackson e os Olimpianos

O ladrão de raios

O mar de monstros

A maldição do Titã

A batalha do labirinto

O último Olimpiano

Extras

Os arquivos dos semideuses

Os diários do semideus

Série Os heróis do Olimpo

O herói perdido

O filho de Netuno

A marca de Atena

A casa de Hades

O sangue do Olimpo