Carta

Querido tio,

Você sempre esteve comigo pra tudo. Ia me buscar na escolinha, comprava pirulito para mim e me ensinou a andar de bicicleta sem rodinhas. Muito obrigada por estar lá por mim.

Sinto muito por tudo o que está acontecendo agora. Eu não pedi por isso. E eu sei que você também não. Pessoas ruins não esperam que algo ruim aconteça a elas, não é mesmo?

Estou escrevendo para pedir perdão. Perdão por ter lhe causado desejo mesmo eu sendo uma criança. Perdão por ter ficado assustada quando você tirou a minha roupa. Perdão por ter sentido medo quando suas mãos alisaram meu corpo. Perdão por querer gritar quando eu senti a minha carne rasgando.

Você tapou meus gritos. Mas não precisava fazer isso, titio. Mamãe e papai sabiam. Eles estavam lá o tempo todo. Não é culpa sua titio, voce me amava muito, eu entendo. Era o que meus pais diziam. Era o que você dizia também. E o que o mundo via. Mas eu via a verdade e ninguém acreditava nela.

Estou doente, tio. Descobriram que eu tenho uma doença que não tem cura. As enfermeiras dizem que eu peguei dos meus pais mas você sabe que não foi deles que eu peguei. Elas vão descobrir de quem foi. Eu espero que elas descubram titio, me perdoe por ser tão egoísta assim.

A cada dia que passa eu fico mais fraca. A doença que eu tenho atrai outras doenças, foi o que eu ouvi dizerem para o papai. Eu só não tive sorte como o senhor de ficar saudável. As enfermeiras descobriram que eu não peguei dos meus pais. E agora, tio? O que vai acontecer quando descobrirem? Eu vou melhorar?

Eles querem te denunciar, tio. Não meus pais, é claro que não, as pessoas do hospital. Eu ouço eles conversando. Eles sabem que foi você. O que você fez. Minha mãe está chorando, titio. Mas não é por mim. Não pelas coisas que eu passei e nem pela situação em que estou. Ela chora por sua causa. Disse que você vai ser preso por minha causa. Me perdoe.

Não sei se conseguirei sair do hospital, tio. Está difícil de respirar e dói muito. Onde você está? Eu vi que a polícia levou você. Estão culpando o senhor. Mas se a culpa era sua, por que mamãe me olha desse jeito, como se fosse na verdade fosse minha?

Mamãe pediu para eu escrever para você. Não sei se ela vai entregar. Disse para eu escrever que eu perdoo você. Vai ser mais fácil te tirar da cadeia se eu perdoar você. Não se preocupe, titio. Meu pai está tentando te tirar da cadeia.

Logo você vai estar livre para viver do jeito que quiser. Mas eu não. Sempre vou estar presa as memórias, titio. Eu era apenas uma criança. Você me machucou. Mas eu te perdoo. Eu perdoo você por tirar a minha saúde, por me passar uma doença, por acabar com a minha infância, por ter feito meus pais me odiarem, por ter me machucado. Eu te perdoo, tio.

Você sempre foi meu tio favorito.

Obs: Texto de cunho ficcional baseado nessa notícia: https://www.acritica.com/channels/hoje/news/menina-de-11-anos-contrai-aids-apos-ser-estuprada-pelo-tio-em-sua-casa

Ciclos viciosos

Fonte: Weheartit

Acordar às cinco e trinta da manhã e nem perceber o nascer do sol na janela. Levantar apressada para as seis e vinte da manhã estar tirando o carro da garagem. Pegar engarrafamento e mais engarrafamento. Bater o ponto às sete e quarenta e cinco rezando para que o dia termine logo. Dezoito horas e estou correndo para tentar em vão chegar no início da aula. Mais engarrafamento. Quarenta minutos depois chego na faculdadade arrastando os pés até a sala de aula no terceiro andar. Antes tomo um copo de café com leite para enganar o estômago e tentar ouvir o que o professor tem a dizer. Não escuto metade do que ele diz. Vinte e três horas me deito na cama desejando que a noite dure mais. Mas não dura.
Essa é a rotina de quem trabalha e estuda. É cansativo. É desesperador. É angustiante. Não consigo pensar em adjetivos que descrevam essa batalha de forma positiva. Mas é necessária. Essa é a minha rotina. Depois de um tempo tudo vira motivo de estresse. O trânsito. Um cliente chato. Um trabalho da faculdade. Um texto que eu não consegui terminar. Os primeiros sinais de estresse e ansiedade já estão aparecendo: quase dez quilos a mais e espinhas que antes eram raras. Chegar e sair de casa emburrada todos os dias. Não ter tempo pra si mesma. Não conseguir passar um tempo com a família e o namorado. Ver meus amigos então? Só os da faculdade e olhe lá. Não sei mais o que é fazer exercícios físicos. Muito menos assistir um filme no Netflix, nem sei porque ainda assino. Ai, ai. Penso em desistir todos os dias.
Mas eu tenho sonhos para realizar. E sonhos custam caro. E para quem não nasceu em berço de ouro não tem jeito, é aguentar o tranco e parar de reclamar. Quem sabe depois que essa fase acabar, eu suspire aliviada e diga que valeu a pena. Que eu evolui, amadureci e me tornei a pessoa que eu queria ser desde o começo. Espero que dê certo. Mas enquanto esse glorioso momento não chega, que Deus me dê forças porque eu estou precisando.

O amor existe?

Uma reflexão não romântica para o dia dos namorados.

Fonte: We heart it

Hoje eu percebi como o amor é relativo. Conversando com um colega de trabalho, ele me disse a seguinte frase: ”Eu amo a minha namorada. Ela é perfeita para mim e eu fico meio assim de trair ela… Mas tem que variar né.” Ué, mas eu achava que amar alguém de um jeito romântico era só ter olhos para uma pessoa. Era se apaixonar todos os dias pela mesma pessoa. Sorrir que nem bobo. Beijar em câmera lenta com o pôr do sol como plano de fundo. Será que isso é apenas coisa de filme?

Não obstante, ele lança mais uma: ”Não tem como evitar, todo homem faz isso”. Fiquei logo paranóica. Será que todo homem fazia mesmo isso? Enganava, mentia, traia e transformava o amor em um sentimento repleto de ilusão? Então não havia saída, se me apaixonasse só teria duas opções: ser enganada ou ficar magoada quando descobrisse tudo? O amor não parece ser tão bom assim quando se vê desse ângulo.
De que adianta amar de mentira? Amar pela metade? Amar e continuar procurando em outros o que você já encontrou? Isso não é amor, é um sentimento distorcido da ideia que se tem de amor. Ou é apenas carência. Querer estar com várias mas ter um ”amor fixo” para os momentos de solidão. Não dá pra acreditar.
O amor existe. Basta acreditar. Basta procurar. Amar não é mentir, enganar, trair. Não é só sexo. É falar a verdade por mais dura que seja. Cometer erros que possam ser concertados. É estar ao lado nos momentos bons e ruins. É sorrir depois de um beijo, mesmo que não seja em câmera lenta. Mesmo que não tenha pôr do sol. Mesmo que o diretor não grite ”Corta” para refazer a cena. Não é algo dos filmes. É algo real. Pode estar distorcido, falsificado e meio errado para algumas pessoas mas ele está lá. Em algum lugar.
                                                                                                                                                     O amor existe.

Amor de Carnaval


Conheci-a há quatro anos durante uma festa de Carnaval exatamente igual a que eu estava agora. Já tinha anoitecido e grande parte dos foliões já haviam se dissipado deixando para trás a sujeira costumeira pelas ruas. Diferente de grande parte da cidade, que não podia ouvir falar em Carnaval que já ficavam excitados, eu gostava de ir para essas festas só para beber um pouco e curtir com os amigos. Nada muito carnavalesco.

Éramos bastante diferentes. Soube disso de imediato. A vi pela primeira vez logo que cheguei, dançando animada com as amigas, não dando a mínima para as pessoas que a olhavam como se ela fosse louca. Era apenas mais uma desconhecida no meio de uma multidão, mas eu a olhei. Seu corpo magro se mexia com excitação, fazendo seus cabelos curtos grudarem em seu pescoço e testa com o suor. Seu rosto estava coberto por uma máscara preta que contrastava com sua pele branca. Acabei perdendo-a de vista alguns segundos depois e logo a esqueci.

O milagre de Carnaval aconteceu poucas horas depois que a encontrei pela primeira vez. Eu e meus amigos estávamos para ir embora, meio embriagados pela bebida e o calor da festa. E de repente ela apareceu na minha frente. Estava com um conhecido de um amigo meu, os que se conheciam se cumprimentaram enquanto eu a admirava quieto. Ela percebeu que eu olhava e devolveu o olhar com um sorriso. Nossos conhecidos apresentaram seu grupo um a um e eu soube o seu nome. Alice.

Acabamos indo todos juntos para a casa do meu amigo. No caminho, comecei a puxar papo como quem não queria nada, mas ela não era de falar muito. Nem eu era, na verdade, mas naquele momento eu queria ser. Alice apenas sorria para cada frase que eu dizia. A turma secou mais algumas cervejas deitados no sofá e no chão, procurando a melhor maneira de se divertir. Alice não fez diferente. Ela não parava em um lugar, sempre bebendo em um canto, falando com uma amiga em outro ou apenas relaxando mas mantendo uma distância de mim.

Já sem esperança, fumei meu cigarro e bebi uma cerveja, desistindo de conversar.

– Tem outro cigarro? – Alice perguntou tirando a máscara do rosto. Sem ela, pude ver seus olhos negros intensos borrados de maquiagem. Passei o cigarro e o acendi para ela. Então começamos a conversar. Não foi algo muito especial, digo, nem lembro mais sobre o que falávamos, afinal, a bebida havia distorcido parte da minha memória.

Pouco tempo depois estávamos no quarto. Sua respiração era ofegante enquanto eu a beijava e tirava seu vestido. Ela possuía tatuagens pelo corpo. Uma espiral na costela. Asas negras na costa como se fosse um anjo.  Era uma Alice diferente de todas as Alices que existiam e viriam a existir. E depois daquela noite, ela desapareceu. E eu nunca mais a vi.

Até essa noite.

Sobre minha faculdade de Jornalismo

Se tem algo que abalou as minhas estruturas esse ano, foi entrar na faculdade. Para quem me acompanha desde o início do blog, sabe que eu comecei a fazer faculdade de Letras na Universidade Estadual do Amazonas e desisti para começar a faculdade que eu queria mesmo: Jornalismo. Sempre me perguntam porque eu fiz essa ‘loucura’ e eu os respondo: Para alcançar meu objetivo final, a faculdade de Letras era maravilhosa para eu crescer na literatura e na escrita, mas eu não sinto paixão alguma em começar a minha carreira dando aula para turmas de Ensino Médio. Pode parecer preconceito e sim, em algum momento da minha vida eu quero repassar os conhecimentos que eu adquiri para jovens, mas não enquanto eu posso fazer muito mais.

Porque escolheu Jornalismo então? Sendo Jornalista eu estou sempre em contato com o mundo, com pessoas e experiências que normalmente outras pessoas não teriam. Eu posso continuar escrevendo e minha ascendência na área dependeria disso (e outros fatores como responsabilidade, dinamismo, competência e etc). Já me alertaram que ser jornalista pode ser perigoso em alguns momentos e não tão remunerado quanto eu gostaria, mas definitivamente existem empregos piores. É um risco que eu pretendo correr.

Mas então, o que estuda a faculdade de Jornalismo? Como ainda estou no primeiro período, não posso entrar em detalhes sobre as matérias que eu ainda vou ter, portanto só falarei da minha grade nesse semestre. Meu curso é noturno e tenho seis matérias ao todo, sendo ministrada uma matéria por dia em três tempos de aula (19:10 às 21:40) com exceção as quintas e sextas que tenho duas matérias e quatro tempos de aula (18:20 às 21:40). O primeiro período é bem básico e introdutório, então não tenho matérias tão focadas na área de Jornalismo, mas sim na área de Comunicação Social, tanto que tem gente de Publicidade e Propaganda na turma.

Sobre as matérias, primeiramente eu tenho Sociologia, que é praticamente a mesma coisa que deram no Ensino Médio (sai do meu pé, Durkhein!). Depois vem Economia que diferente do que eu achei no primeiro dia de aula, não tem cálculo nenhum (Ainda bem), até agora estamos estudando a origem do comércio (aulas de história basicamente) e aquelas leis de mercado chatinhas como lei da oferta, demanda e etc. Quarta-feira é dia de Português que são praticamente as mesmas aulas que eu assisti na UEA (parágrafo padrão, Saussure e etc), nenhuma grande novidade. Logo mais tenho a matéria mais love&hate de todas: Metodologia do trabalho. Ô matériazinha que dá nos nervos. Nela, aprendemos como se deve fazer um trabalho acadêmico corretamente e quando eu digo ‘aprender corretamente’ eu quero dizer usando as normas da ABNT que, meus amigos, são muitas. Também tenho Teoria da comunicação que por enquanto é a minha matéria favorita, pois nela, aprendemos a teoria da coisa toda, desde o surgimento da comunicação,  comunicação verbal, não-verbal, pictórica etc e os estudos do mass media na sociedade. Por último, eu tenho a matéria de Antropologia que, para falar a verdade eu acho muito semelhante à Sociologia com apenas algumas pequenas diferenças.

Vocês têm alguma dúvida sobre a área de Jornalismo? Entrem em contato comigo ou comentem aqui embaixo que eu procurarei responder todas as dúvidas.

Das cartas que eu nunca te escrevi

cartas

Meu amor, o que houve entre nós? Costumávamos ser tão felizes como qualquer casal apaixonado, cheio de risinhos, olhares e mãos-bobas, sem falar nos beijos… Como eu amo beijar você, com esse seu jeito de quem não tem nada a dizer, mas que demonstra muito ao sorrir depois de um beijo longo que me fazia arder como o sol no verão.

Meu amor, o que aconteceu? Você não mais segura a minha mão, entrelaçando nossos dedos, me dando a sensação de que foram feitos para estarem ali. Onde foram parar as nossas gargalhadas solitárias enquanto passávamos horas deitados na sua cama, minha cabeça encaixada perfeitamente no seu ombro, quase adormecendo enquanto você fazia carinho no meu corpo?

Meu amor, porque você mudou? Por que não conversamos mais por horas a fio, falando sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo, às vezes adormecendo no meio da conversa? Você dizia tantas coisas bonitas para mim e eu só podia pensar ”É ele, têm que ser ele”.

Meu amor, para onde você vai? Não consigo imaginar como vai ser quando você não mais estiver aqui. Quem vai te abraçar quando você estiver triste e segurar a sua mão quando estiver com problemas? Queria pedir para você ficar, implorar até, mas sei que nada do que eu fizesse poderia fazer você feliz comigo novamente. Então vai. Pode ir. Vai. Eu continuarei aqui, só mais um pouquinho, tentando entender o que deu errado e esperando você voltar. Só um pouquinho. Não demore meu amor, ou sou eu quem vai embora e aí… Bem, aí nada mais.

Para meu amor

que não foi embora,

mas vai

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva do Rotaroots.

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O que mudou depois de um mês?

Se fosse em outro momento da minha vida, eu diria que nada tinha mudado. Poderiam se passar meses, anos, a vida toda e eu continuaria a mesma de sempre. Sempre soube que esse ano seria diferente, que eu teria mais decisões a se fazer, mais responsabilidades e teria que  começar a ralar para realizar meus objetivos. Até aí tudo bem, eu estava me preparando psicologicamente para isso.

O que eu não esperava era não passar na faculdade que eu queria e ter que optar pro meu plano B, fazendo assim eu ir para um curso que eu não queria. Acontece, fazer o que. Nem tudo vai ser como a gente planeja. De qualquer forma, o primeiro semestre de 2014 foi um período de confusão, transição e aceitação. Não ia fazer algo que eu não gostasse só pela faculdade ser de graça.

Eis que começo o curso que eu queria (depois de muitas brigas e comentários horríveis) e já começo com um probleminha. Me matricularam num turno que não tinha. Pô, parece bobagem se preocupar com isso né, mas imaginem eu, chegando na faculdade explodindo de esperança para que dessa vez dê certo esse lance de Jornalismo e quando vou atrás da minha sala… ela não existe. Pois é, comecei a achar que isso era um sinal pra não fazer o curso. Mas como uma boa teimosa, eu resolvi fazer à noite.

Pode parecer precipitado dizer isso depois de um mês, mas eu estou apaixonada pelo curso, pela turma, pelas amizades que eu estou fazendo. Estou gostado de um forma que eu não conseguiria gostar se não tivesse arriscado mudar de faculdade tão rápido. Aquela dúvida que eu tinha antes sobre fazer a coisa certa já era, eu sinto que eu estou no caminho certo.

Mas não é tão fácil como parece. Para uma pessoa extremamente tímida como eu, todo dia é um desafio. Quem me conhece sabe que falar em público sempre foi um problema para mim. Sempre fui muito quieta e na minha, mas assim como fiz dança, teatro e modelagem para para perder a timidez, a faculdade de Jornalismo é mais um meio que vai me ajudar a me expressar. Eu tenho consciência que as coisas vão ficar mais difíceis mas eu pretendo arriscar quantas vezes forem necessário para conseguir o que eu quero.

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